Revista como fonte histórica: o caso da "Revista Brasileira de Cultura"
- Pedro Ghisio

- 5 de nov. de 2020
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De forma sistemática, o trabalho tem como objetivo investigar as funções e utilidades de uma revista como fonte/objeto de estudos na construção do saber histórico, assim como visa examinar sobre a Revista Brasileira de Cultura (1969-74), organizada pelo Conselho Federal de Cultura (fundado em 1966). As revistas não se reduzem a divulgação de um discurso de matriz teórico-crítica ou ensaística, mas carregam consigo projetos políticos e culturais de determinado grupo de intelectuais.
A revista, portanto, serve como um espaço de sociabilidade para os intelectuais, além de ser fonte primordial na divulgação de representações sobre a cultura nacional. Como método de análise, a crítica externa (sua produção material) e a crítica interna (análise linguística no interior dos artigos) dos textos publicados; busca-se analisar a vida e a obra dos intelectuais envolvidos tanto na produção do artigo quanto aqueles citados no próprio texto; e por fim, a identificação da linguagem atribuída a cada gênero explorado nos artigos, sendo ele filosófico, poético, literário ou sociológico.
O trabalho também tem como objetivo compreender a revista como espaço de circulação de ideias desses intelectuais vinculados aos movimentos na qual tem influência. Nesse viés, a revista também funciona como instrumento de intervenção cultural do tempo presente, a partir de um projeto político preocupado em conformar diretrizes acerca da formação da identidade nacional. Assim, os artigos publicados revelam a necessidade de definir o que é a identidade nacional, introduzindo valores, pensamentos e ideologias em relação ao nosso país e à nossa história. Isso permite uma complexificação da relação entre os intelectuais e o estado.
Baseando-se no livro “Leituras, projetos e revistas do Brasil (1916-1944)”, Tania Regina de Luca apresenta o percurso metodológico específico sobre os impressos periódicos. De início, percebeu-se que o conteúdo de jornais e revistas não pode ser dissociado das condições materiais e/ou técnicas que presidiram seu lançamento, como os objetivos, público alvo, formato produzido, impressão, formas de utilização e padrão estético. A estrutura interna, assim como a externa, é dotada nesse sentido, de historicidade. Em um segundo momento, é importante ficar atento ao grupo de colaboradores da revista, os envolvidos em sua produção e organização, pois a revista constitui um projeto coletivo, “ponto de encontro de itinerários individuais unidos em torno de um credo comum”.
A autora ao mesmo tempo elucida que nessa perspectiva, sendo a revista um espaço aglutinador de ideias em constante embate e de intervenção no espaço público no âmbito cultural, nos oferecem oportunidades de explicitar os embates em torno de projetos políticos e questões artístico-literárias que, longe de esgotarem-se em si mesmas, dialogam intensamente com os dilemas do tempo. O importante não está no conteúdo, na sua presença ou ausência, de elementos invariáveis que poderiam definir a natureza do periódico, mas como ele se articula como um todo na sua estruturação interna, na relação entre o textual e o icônico.
As revistas culturais estão associadas a uma variedade de publicações com difusão narrativa a ficção poética, enquanto outras, sem deixar de se valer do literário, tinham escopo diverso e abrigavam ensaios sobre os mais variados temas, sempre com o intuito de discutir os grandes problemas nacionais e apontas caminhos para solucioná-los. Ao mesmo tempo, progressivamente as revistas dedicam pouco espaço a crítica, renunciando a um discurso metatextual, se ocupando de outros textos já estabelecidos. Em linhas gerais, essas análises permitem antever estratégias de intervenção no espaço público e esclarecem sobre valores partilhados pelo grupo propositor e sua forma peculiar de apreender o passado e imaginar o futuro.
Os movimentos de vanguarda, por último, são grupos consistentes com ideias em comum que se utilizaram de periódicos/ revistas como instrumento de luta e veículo privilegiado para difusão de novos princípios e manifestos, pois além de cumprir a função de combater o passado e dar publicidade aos novos valores, as revistas também desempenharam papel estratégico no processo de transformar a novidade em exemplo, uma vez que colaboram para difundir procedimentos típicos de correntes literárias e para habituar o leitor a elas.
Analisando em uma perspectiva sincrônica e diacrônica, percebe-se que a sucessão de revistas pode ser interpretada como um processo de definição e assunção de posições no interior de um movimento modernista-conservador, caso da Revista Brasileira de Cultura. Importante analisar, em último caso, as fases e séries de publicação, revelando que em cada momento de circulação, existe uma especificidade, com os responsáveis e os objetivos perseguidos.
Com base em uma análise discursiva e linguística, em último caso, a ambiguidade de sentido através da transmissão de ideias do autor ao longo do artigo, deve ser levado em conta. Com isso, tal conjunto de conceitos substitui a ideia mais simples de um autor enunciando basicamente suas ideias, que eventualmente ocultam intenções indivisíveis, ideológicas, das quais pretendia-se compreender o significado enunciado. A análise crítica dos discursos sociais é imprescindível para esse desenvolvimento.
Beatriz Sarlo, por exemplo, discuti a natureza da revista como fonte histórica e que, mesmo sendo reveladora, apesar de aparentemente ser “antiquada” pela perspectiva de quem não é um estudioso, a revista perde sua aura de presente e se transforma em passado, em documento. Através do texto “Intelectuales y revistas: razones de uma práctica” a autora define as funções e utilidades de uma revista ou periódico como fonte de estudos para o saber histórico. Em outras palavras, os métodos e teorias são importantes para entender como tratar com essa fonte específica de conhecimento. O texto também tem como objetivo organizar de forma ordenada e continua meus pensamentos sobre a natureza da revista como conglomerado de ideias atribuídas a um determinado grupo político.
Por sua vez, a revista é uma forma política de intervenção cultural a partir de cima, preocupada com o tempo presente e suas demandas, como um conjunto de práticas de produção e circulação, servindo também como instrumento de agitação e propaganda. Serve como um testemunho perfeito para entender determinado período, entendendo o processo de modernização e debate cultural. A revista é ordenada e organizada, controlada por um discurso cultural programático, do que se quer passar a determinado público, introduzindo valores, pensamentos, ideologias e etc.
A revista é a base de conflitos ideológicos e estéticos dentro do discurso literário, não sendo apenas um discurso de matriz teórico-crítica ou ensaística, mas revela toda uma mentalidade de um determinado período. Ela se preocupa, dentro de um espaço geográfico em: Que informações traduzir? Para quem traduzir? Que influencias externas importar? Para grupos restritos ou para a grande massa? Eleitos os problemas principais a serem desenvolvidos e resolvidos, a revista como centro de circulação e debate de ideias permite um projeto político mais amplo. Logo, é possível dizer que cultura e política estão ligadas diretamente e, sendo assim, a revista é um instrumento intermediário que consegue dinamizar essa intervenção.
Um dos casos mais interessantes relacionados ao Brasil está atrelado a "Revista Brasileira de Cultura". Os intelectuais tiveram um papel de destaque na construção da identidade nacional, sendo observados na análise de periódicos e revistas, importantes veículos na divulgação das tradições intelectuais, sendo utilizadas, através das redes de sociabilidade, em instrumentos de intervenção cultural e política em disputa, definindo os intelectuais brasileiros como “homens de pensamento e ação”.
Ocorre, no entanto, nos anos 60 no período do regime militar, uma “construção institucional” de uma política cultural, na qual a cultura estava associada com as relações de poder, sendo o Estado um financiador e organizador de projetos culturais. A Revista Brasileira de Cultura gira em torno do CFC (Conselho Federal de Cultura), criado em 1966 e instituído por Castelo Branco, com o objetivo de elaborar o Plano Nacional de Cultura. A nova revista teria incluído um conjunto de periódicos que tanto influenciariam o campo intelectual, responsáveis por divulgar os posicionamentos intelectuais em torno da nacionalidade. Nesse viés, o intelectual se torna um agente político dentro de um processo de institucionalização do campo cultural e de mecanismos de inserção social. Gilberto Freyre define a importância do periódico nesse trecho da primeira edição: “...através de suas revistas, é favorecer, amparar, estimular instituições e atividades em que se exprima, ou que venha se exprimindo, uma cultura brasileira – inclusive protegendo contra a ação do tempo ou contra os desvarios insensatos ou a ganancia de interesses privados, valores históricos, monumentos artísticos, paisagens de interesse público ou de significação nacional.” Os periódicos são como máquinas administrativas do setor público que amparam o funcionamento do país.
De modo geral, os temas apesar de variados podem ser tipificados. A literatura, a organização política, a demarcação territorial e a definição do “tipo” brasileiro aparecem constantemente e são consideradas os elementos chaves na compreensão da cultura nacional. O caráter ensaístico prevalece nos artigos refletindo a própria formação intelectual dessa geração.




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