Literatura como fonte histórica
- Pedro Ghisio

- 26 de out. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 23 de nov. de 2020
É preciso, antes de desenvolver uma análise crítica e sustentada na fonte original, olharmos um pouco a importância da literatura na história como ciência e o apoio fundamental que as narrativas têm na descrição de um determinado período ou até mesmo na construção idealizada dele. Vamos notar que apesar de muitos autores construírem uma realidade que querem apreender para si, é irremediável as influências externas inseridas em seu próprio tempo social, político e cultural, nos problemas nas quais levantam e aquilo que pretendem por atitude própria resolverem. Isso é sempre exposto nas entrelinhas.
Fonte primária é aquilo que foi produzido no período estudado, enquanto a bibliografia é a produção de um autor sobre determinadas fontes e sobre determinada época. Ao contrário da obra de historiadores da antiguidade, que descreviam os fatos de acordo com sua observação direta, há elementos nas fontes literárias que contem mitologia. Difícil lidar com essas narrativas como reais, pois as mesmas não se pretendem como tal. São narrativas poéticas que tem um grau elevado de liberdades narrativas.
Existem muitas interpretações possíveis de uma mesma fonte, assim como diversas visões que o próprio passado tenta construir de si para os outros. Apesar da narrativa ser essencialmente literária, há um fundo de realidade na retratação dos valores e concepções de um dado período histórico que é colocado na indagação do pesquisador, já que a literatura parte do real, não tomando ele como narrativa estrita. As fontes literárias tem essa relação entre o idealismo ficcional de construção de personagens e a realidade concreta que cerca esse autor.
Necessário é fazer uma relação entre história e literatura, mas também há necessidade de diferenciá-las, justamente pelas suas claras semelhanças. Ambas são formas de explicar o presente, inventar o passado, imaginar o futuro; elas se valem de estratégias retóricas, estetizando as narrativas na qual se propõem a falar. Ambas as fontes representam as inquietudes e questões de um dado período histórico, particular. Mas há um claro distanciamento também nas atitudes de ambas as áreas. A história se utiliza da imaginação do historiador para dar sentido a narrativa, é uma ficção controlada pela relação que estabelece com seu objeto de estudo; em outras palavras, o compromisso da história está em atingir uma verdade, dar sentido a narrativa pelo mais próximo possível da verossimilhança do acontecido.
O passado não é algo a ser “descortinado”, mas é uma construção intelectual que se faz tanto pelo historiador, com suas escolhas, teorias e metodologias, como pela própria parcialidade do objeto a ser analisado, ou seja, a fonte primária. Na posição entre a história e a literatura, é a primeira que formula as perguntas e indaga, enquanto a segunda, pelas perguntas feitas, fica na posição de fonte, não de ciência. A literatura ocupa uma função como um sinal do passado, como um documento, um traço a ser explorado e analisado. É o posicionamento do historiador que dá a ele o papel de quem faz as perguntas e coloca o objeto como traço de um outro tempo, no caso, as obras literárias.
O objetivo do historiador não está relacionado em acessar o passado por um discurso narrativo ficcional, a “verdade de um outro tempo”, mas a concepção formulada no tempo da escritura. Em outras palavras, o passado não é algo dado que deve ser “descoberto”. O fator tempo é fundamental nesse sentido, pois não deixa a obra inerte ao seu próprio contexto e realidade, diretamente determinante na construção da obra, como nos diz Sandra Pesavento na obra “História & História Cultural”: “A literatura permite o acesso à sintonia fina ou ao clima de uma época, ao modo pelo qual as pessoas pensavam o mundo, a si próprias, quais os valores que guiavam seus passos, quais os preconceitos, medos e sonhos. Ela dá a ver sensibilidades, perfis, valores. Ela representa o real, ela é a fonte privilegiada para a leitura do imaginário. Porque se fala disto e não daquilo em um texto? O que é recorrente em uma época, o que escandaliza, o que emociona, o que é socialmente aceito e o que é condenado ou proibido?” (pág. 82).
A literatura é testemunho de si próprio, sendo tomada a partir de seu autor e sua época, o que pode dar pistas para o pesquisador sobre a escolha temática, o enredo, assim como o horizonte de expectativas. Sendo assim, a própria escolha temática e a seleção daquilo que foi dito e que será analisado é parte da crítica histórica, tendo de ser avaliada metodologicamente. A literatura é a representação, nesse viés, mais profunda e criativa de seu próprio tempo.
Peter Burke na obra “O que é História Cultural” também nos dá uma noção do evento da visão construtivista por parte dos historiadores e acadêmicos, pondo em dúvida a veracidade contida nas narrativas das fontes como algo objetivado dentro da ideia positivista, o que pode ser útil na análise das obras e fontes primárias: “Lançou-se dúvida sobre a suposição de que uma representação ”corresponde” ao objeto representado. A suposição de transparência, cara aos acadêmicos tradicionais, foi posta em questão. As fontes históricas agora parecem ser mais opacas que o que costumávamos pensar (…) Dessa forma, os historiadores tornaram-se cada vez mais conscientes de que pessoas diferentes podem ver o “mesmo” evento ou estrutura a partir de perspectivas muito diversas.” (pág. 100 – 101).




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