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O imperialismo e as virtudes romanas na obra de Horácio

  • Foto do escritor: Pedro Ghisio
    Pedro Ghisio
  • 2 de dez. de 2020
  • 18 min de leitura

Atualizado: 25 de set. de 2022

O objetivo primário aqui é discorrer sobre a construção de um idealismo imperial e de valores coletivos através da obra de um dos maiores poetas da literatura romana: Horácio. Partindo de uma perspectiva histórica, procuro analisar a realidade dessas ideias por meio da concepção que os romanos tinham de “civilidade”, “costume”, “virtude”, "romanidade" etc. Valores esses atribuídos a cultura da aristocracia senatorial, inseridos diretamente ao processo de expansão e conquista nos séculos do império.

A delimitação temporal é o primeiro século a.c, com a queda da república e o início do período Augustano, quando Roma centraliza seu poder na mão de um principado. Dessas reformas imperiais, nascerá uma nova ordem política pela diarquia. O ponto de apoio para essa análise será a obra monumental de Horário (Sátiras) como fonte primária. Usarei, ao mesmo tempo, a historiografia especializada como um plano de fundo sobre o período de transição e o início do Império.

Os problemas aqui estão inseridos em questões precisas, como: a obra realmente faz uma representação fiel dos seus problemas no período abordado? É possível ser apenas uma construção idealizada dos valores romano ou está presente na vida privada da classe governante? Na tentativa de construir esses mesmos valores, será que teve algum efeito ou repercussão, através de suas críticas, na sociedade imperial? O método utilizado é a abordagem histórico-crítica, não propriamente literária. Portanto, eloquência e questões estéticas não entram aqui.

A realidade romana é diferente, pois a literatura se aparta de sua própria realidade material, em um sentido evasionista. O romano ocupa o espaço e, no movimento de importação e assimilação de culturas estrangeiras, domina com sua característica cosmopolita. Carpeaux diz: “Devia ser literatura de evasão, porque não tinha nada com a realidade no meio da qual surgiu. O espírito grego cria as suas realidades: estado e poesia, religião e teatro estão no mesmo plano; a distinção entre realidade material e realidade espiritual, para o grego, não tem sentido. A realidade romana é construção em material dado. É realidade econômica, política, jurídica, administrativa. O romano não criou o seu mundo; encontrou-o, dominou-o, continuou a dominá-lo, pensando em termos administrativos. A realidade espiritual, importada de fora, é uma planta exótica em Roma; e os que pretendem viver nela só podem fazê-lo como um alto funcionário que nas horas de ócio se entrega a caprichos de diletante, ou como um boêmio que se afasta das ocupações sérias da vida.” (Carpeaux, Maria Otto. História da Literatura Ocidental. Volume 1. pág. 72) O diletantismo romano é uma das características essenciais, pois o desenvolvimento de reflexões filosóficas eram acompanhadas por funções públicas, militares e comerciais, não exclusivamente intelectuais.

A importância dada a obra de Horácio é fundamental, pois ela é parte de um programa que não apenas teve impacto social, mas a própria crítica através da obra “Sátiras” revelou as contradições da opulência e ostentação aristocrática da época, que se distanciava muito das reais virtudes a serem seguidas. Paul Veyne demonstra sobre os "excessos" da aristocracia, a verdadeira face do mundo antigo que doutrinalmente tentava ser evitado: "Condenando a riqueza ou a indolência, o bom senso antigo tem um objetivo: garantir a segurança da pessoa privada censurando as fraquezas ou apetites que a expõem as tempestades da vida; censura os que se arriscam com muita vela ao vento. São doutrinas de tranquilização." (História da Vida privada. Volume 1. 2009. pág. 167) A literatura romana, como um todo, tem como característica comum o evasionismo e individualismo; é uma literatura que tenta se apartar de sua realidade bruta e corrupta, na busca de criar o ideal romano em um tempo de legitimidade do poder. Horácio, junto de Virgílio, faz parte disso. Nesse período de transição, os pequenos poetas como Ovídio e Propércio dão lugar aos últimos poetas maiores da literatura romana, que irão construir pelas suas obras o "ideal da coletividade" das origens e das características daquilo que é própria dos romanos. Havia uma desproporção, nesse viés, entre a realidade romana e sua literatura produzida, assim como os costumes na vida pública e privada.

Foi justamente nesse período que se iniciou a quarta fase literária romana, com o surgimento de obras de força coletiva que tentaram, assim como as epopeias gregas de Homero e Hesíodo, construir adjetivos fixos da época augustana, como nos diz Carpeaux: “O restabelecimento da paz por Augusto parecia tornar possível a conjunção dos esforços políticos e culturais. A proteção que Mecenas deu às letras é uma tentativa de conseguir artificialmente a unidade das realidades material e espiritual, própria dos gregos. O Estado romano esperava os seus Homeros e Píndaros. A literatura latina, porém, por força das suas origens, é individualista e elegíaca. A dois grandes poetas menores, Horácio e Virgílio, coube a tarefa de realizar uma poesia maior. A consequência foi o artifício sublime: o classicismo” (Carpeaux, Maria Otto. História da Literatura Ocidental. Volume 1. p. 84)

A força de Horácio não se encontra apenas no seu estilo satírico e crítico, do tipo quase elegíaco, mas na revelação de uma realidade que era contrária ao que o império precisava para consolidar-se como unidade, nessa união augustana tão desejada depois de um período de guerras civis, como nos revela Plutarco. Precisava-se agora com a classe aristocrática, estabelecer uma linearidade e continuidade de origem desde os supostos reis romanos do século VII. Perry Anderson fala sobre o início do período de Augusto: "A pequena nobreza italiana conquistara integração jurídica a comunidade romana, mas até então não conseguira romper os círculos internos do poder e da administração senatorial. A oportunidade para uma intervenção política decisiva chegou, porém, com a irrupção do ciclo final das guerras civis entre triúnviros. A nobreza provincial da Itália se uniu a Augusto, autoproclamado defensor de suas tradições e prerrogativas, contra o orientalismo estranho e sinistro de Marco Antônio e seus exércitos em campanha. Foi a adesão da nobreza provincial a causa de Augusto, com o famoso juramento de fidelidade de "tota Italia", em 32 a.c, que garantiu a vitória em Áccio." (Passagens da Antiguidade ao Feudalismo. 2013. pág. 79)

O que vemos em Horácio é um poeta que se aparta dos problemas sociais e políticos da cidade com sua retirada para o campo, em uma vida pacata e contemplativa, de um poeta essencialmente individualista, essencialmente romano, entrando naquela característica evasionista. Horácio nos diz sobre a vida campestre e do sossego que tem em sua propriedade, ao invés de estar cercado e inquietações e perigos: "Nestes montes, enfim, acastelado, longe de Roma tratarei primeiro de polir minhas sátiras pedestres: aqui dirá ambição não me persegue. O sul pesado, ou o doentio outono, que tanto lucro a morte oferece." (Sátira VI, Livro II, versos 22-27)

Mas, ao mesmo tempo, é dele que vemos um moralismo elegante que tenta conservar nos homens da aristocracia alguma moderação e comedimento que tanto desestabilizou a política republicana, associando a isso a filosofia estoica. Nesse sentido, a própria filosofia tem sentido pragmático, em dar orientação pela "busca da felicidade" e do ideal de vida, como diz Paul Veyne: "uma filosofia propunha-se dar aos indivíduos um método de felicidade. Uma seita não era uma escola aonde se ia aprender ideias gerais; aderia-se a ela porque se buscava um método racional de felicidade. A moralidade fazia parte dos remédios prescritos por algumas seitas, que explicavam a receita racionalmente.." (História da Vida privada. Volume 1. 2009. pág. 202)

Vale aqui ressaltar um ponto: quando um indivíduo deixa transparecer um ou mais dos sentimentos exacerbados que a princípio estão adormecidos em seu interior, torna-se alvo das mais severas críticas. O processo de observação do comportamento alheio, inerente ao ser humano, quando exteriorizado e associado ao talento criador, transforma-se em arte, que perpetuará seres e costumes. A importância do poeta reside ai e o próprio Horácio entende a importância e o efeito de seus versos ao denunciar ou debater assuntos de suma importância: "Um motejo, um ridículo frisante, grandes coisas melhor decide as vezes, do que a própria razão austera e forte. Nisto apraz, de modelo nisto sirva hão escrito os cômicos gregos." (Sátira X, Livro I, versos 18-22).

Suas observações vem dessa experiência histórica de rivalidades entre grupos familiares, da ostentação e exclusão extensiva do final da república para o início do império com as guerras civis, a manutenção dos privilégios frente ao apelo das "massas". Disso surge o ideal do homem sóbrio e disciplinado que será encontrado na obra de Horácio de forma satírica.

Consolida-se, por esses valores, o sistema definido no regime Augustano, uma “Diarquia”, regime que possui dois chefes de Estado: primeiro o "principes" com sua casa familiar; em segundo, o Senado e Povo que representavam em conjunto o regime republicano. Augusto tinha em sua pessoa a união de poderes ordinários e de preeminência excepcional que não apresentava inconvenientes, mas a eventualidade de sua morte obrigava a tomar atitudes enquanto ao regime que fundara. O príncipe, junto com sua casa, era elemento importante de execução de funções reguladoras e vigilantes sobre o regime republicano. A diarquia cria no principado a coexistência num equilíbrio sempre ameaçado e preservado. Pierre Grimmal fala com assertiva sobre a questão do poder: "O que havia de novo não era que um só homem concentrasse nas suas mãos poderes que habitualmente pertenciam a personagens diferentes (...) a inovação (e a anomalia) começava apenas na duração deste poder e, sobretudo, a do consulado incessantemente renovado..." (O Século de Augusto. 2008. pág. 52)

O modelo que ele criou de apaziguamento e acomodação de interesses vai depois servir como referência para os demais imperadores, sendo que aqueles que desafiaram essa mesma orientação, provavelmente saíram do poder ou foram assassinados, mostrando a realidade caótica do qual a literatura romana se aparta. Esse poder se consolida também pela distribuição de terras aos aliados e ao assentamento dos legionários, como Horácio mostra: "Dará César às tropas cá na Itália, ou na Sicília, os prometidos campos? - Se lhe juro que nada sei, me admiram como homem de um segredo inviolável." (Sátira VI, Livro II, versos 77-80)

Da crítica satírica, importante é entender a realidade do poder no qual estava assentado. Do principado de Augusto estava baseado em três grandes forças: Patrícios, Plebeus e Exército. Os Patrícios e Plebeus (cavaleiros) unidos haviam formado a “nova elite” (nobilitas). Horácio nos apresenta essa indistinção entre plebeus e patrícios no interior das estruturas sociais romanas no que tange a conquista de glórias, "dignidades" e prestígio de uma família que buscava pela mobilidade do "cursus honorum", alcançar a glória aristocrática: "Como usam muitos, de nariz torcido, olhas para os inferiores, como eu, filho de um pai que escravo fora: e quando afirmas que nada importa o nascimento ao honrado, com bem razão te persuades, que antes do reinado e poder do ignóbil Túlio, muitos, de ínfimos pais nascidos, viveram justos e acrescentados de amplas honras (...) Da senatoria lista me riscara, porque de livres pais não fui nascido; e com razão, talvez, pois que insensato Quieto não quis ficar na própria pele! Mas ao carro fulgente a glória algema, sem distinção plebeus e cavaleiros." (Sátira VI, Livro I, versos 7-32)

Durante o conflito entre cesaristas e anticesaristas, Horácio esteve presente. Sétimo Pompeu, filho do antigo inimigo de César, tenta uma vingança contra os adversários de seu pai, com o domínio do mar e a interrupção do compartilhamento de grãos na península itálica. Uma comitiva é convocada com diplomatas em Brindes para resolver a questão em torno de tratados; dentre os poetas presentes, Horácio faz um riquíssimo relato na tentativa de conciliar uma das grandes preocupações de Augusto como forma de propagandear o futuro regime imperial: evitar a todo o custo o fausto e o luxo privado, permanecer fiel ao velho ideal romano de simplicidade e de economia dentro da concepção estoica, na qual fora ensinado por Atenodoro de Tarso. Horácio mostra sua crítica no excesso a confraternização: "Que virtude, e quão grande, é viver sóbrio, (avisos são do camponês Ofelo, homem singelo, e sem estudos sábio). Amigos aprendei - não entre os pratos, e lautas mesas, que esses vãos fulgores a visita nos embotam, e nossa alma, propensa a ilusões, ao bem se esquiva..." (Livro II, Sátiras II, versos 1-7).

É um precioso testemunho: a primeira ocorrência de um tema dominante na propaganda de um regime que estava se construindo e se centralizando sutilmente. Esta afeição de simplicidade é tanto mais digna de nota, diferencia-se de modo evidente com o aparato quase régio e palaciano de que se rodeava Antônio, inimigo de Otávio, na Ásia. Demonstra-se nesse sentido de forma linguística e literária, as diferenças entre o “despotismo e exuberância” asiática adotada por Antônio e o ideal neoestóico pragmático do futuro imperador Augusto, criando pela linguagem um distanciamento imagético e um contraste entre ambos. Dentro dessa elite senatorial, Horácio faz crítica a avareza e aconselha a moderação na conquista da fortuna, um dos traços típicos de sua atuação normativa nas poesias, o que nos indica sobre o apego demasiado dos poderosos a riqueza: "Há uma medida para as coisas - isto é: em tudo deve-se atender aos justos limites. Conselho de moderação e prudência" (Livro I, Sátira I, verso 160)

A ideia básica, assim como a conservação e simplicidade do mundo romano, é a concepção de continuidade, não a ruptura. O governo de Augusto, chamado de "principado", procurou manter as aparências de república: os romanos não mudam o conceito de como referem seu estado, continuando a nomear o processo de “Res Publicae” e o Senado continua como a instituição representativa do povo romano; nem mesmo as magistraturas são extintas. O que vai acontecer então? Acontece um processo paulatino de concentração desses poderes da república na figura do Augusto, assim como à criação de novos títulos. No principado, portanto, não existe um novo regime declarado, existe "indivíduos" que assumem as responsabilidades e os poderes das principais magistraturas, com conjunto de títulos. Inclusive, os “principes” ainda eram pensados como um superior entre seus iguais, ou seja, está no mesmo universo dos demais, mas ainda superior, um indivíduo que tem certas prioridades. Horácio abandona, dentro dessa conjuntura política, o partido dos anticesaristas em favor do futuro imperador Augusto: "Tomara que Mecenas, Vário e Plócio, Válgio, Virgílio, o ótimo Fusco, Otávio e os Viscos estes versos louvem: e ainda, sem ambição, nomear posso Bíbulo, Servo, Polião, Messalas e a ti cândido Fúrnio, e vários outros sábios amigos que prudente omito." (Sátira X, Livro I, versos 110-11)

Os dois grandes títulos que permitem a Augusto se colocarem na posição de um homem diferente dentro de Roma são “Principes” (aquele dotado de maior autoridade moral e se expressava no Senado com mais falas – título republicano) e “Imperator Perpetuo” (título dada a um general no campo de batalha). É uma construção de apoios, mecanismos e recursos onde há garantia das figuras mais importantes do poder, e ai entra a figura de Horácio, como amigo de Mecenas.

O fato é que não corresponde propriamente a uma ruptura institucional, na medida em que não tivemos uma extinção das instituições da república romana, mas no acúmulo de cargos e funções políticas que atribuíram um poder quase ilimitado a Otávio. Além disso, quer seja por estratégia, quer seja por convicção, Augusto ascendeu ao poder em Roma sem desafiar a tradição política romana e nem os principais grupos dirigentes, colocando-se como um defensor da "Res Publicae" e de suas instituições, especialmente de seus valores, mantendo a ritualística do poder. Grimmal diz: "Não havia nisto duplicidade alguma: os instrumentos do poder eram realmente restituídos ao corpo político; mas sucedia que estes instrumentos eram confiados a um único homem, investido de uma missão "excepcional". (Século de Augusto. 2008. pág. 53) Liga-se a Augusto o defensor das tradições e valores.

É importante mencionar que nessa centralização a também a construção fantástica de propagandas políticas em sua pessoa e no império como ordem política; Augusto, junto com seu amigo Mecenas tornaram-se patrocinadores das artes, da literatura, da escultura, da filosofia, dos mosaicos etc. A arte agostiniana vai ter duas funções básicas pelo patrocínio do estado: trazer glória a figura do imperador e de outro lado construir os valores do império. Os valores no mundo romano são extremamente importantes para entender suas idealizações e seus objetivos, o comportamento e o dever cívico frente aos caprichos e paixões individuais são a chave para a coletividade construída pelos poetas contra a divisão interna nas rivalidades políticas e da ambição privada.

O neoestoicismo é a corrente filosófica mais difundida no muno romano, apesar de não ser a única. E não é apenas a mais difundida, mas o instrumento de orientação do ideal da "romanidade" ligando o homem cívico e disciplinado que segue a comunidade, deixando as paixões e "vontades individuais" de lado, torna-se o perfeito aliado dessa integração. Giovanni Reale nos define a base do estoicismo romano e sua efetividade dentro do mundo cívico na obra "História da Filosofia (volume 1)", onde diz: "Deve-se ressaltar, a esse respeito, que o estoicismo foi a filosofia que em Roma angariou sempre o maior número de seguidores e admiradores, tanto no período republicano quanto no período imperial (...) O indivíduo, alentados consideravelmente os laços com o Estado e com a sociedade, buscou a própria perfeição na interioridade da consciência, criando assim uma atmosfera intimista..." (pág. 325) Horácio tem um diálogo com um dos aprendizes do estoicismo romano, Damazipo, que tenta convencê-lo de que ele era louco e que apenas um sábio dessa filosofia não era: "Quantos padecem de violento afeto, ou de ignorância de qualquer verdade, todos são de insensatos alcunhados entre a grei de Crisipo e em seus alpendres: povos e reis, exceto o sábio apenas, esta fórmula abraça - escuta agora como esses que te põem de louco o nome, outro não têm..." (Sátira III, Livro II, versos 65-72) Paul Veyne também mostra uma característica comum em torno do debate de ideias desse tipo: "cada seita continuava a doutrina de seu fundador e era ou se julgava fiel a seus dogmas; a ideia de livre procura era desconhecida. Cada seita transmitia a doutrina como um tesouro e polemizava ardorosamente contra a doutrina das outras seitas..." (História da Vida privada. Volume 1. 2009. pág. 205)

A ética da antiga Estoa está contida na visão em que se busca viver "segundo a natureza". Mas essa tendência natural é de se "conservar a si mesmo", "apropriar-se" de si caracterizado pelo termo "oikéiosis". O impulso do homem é sustentado pela razão, dado que a natureza do homem é ser racional e viver "segundo a natureza", é viver pela conciliação com o próprio ser racional. O bem moral para os estoicos é justamente aquilo que incrementa o "logos"; o mal, aquilo que prejudica. O verdadeiro bem, para o homem, é somente a virtude, o verdadeiro mal é somente o vício. A ideia de "dever" então é posta por Reale: "Aquilo que as leis ordenam são "deveres", que no sábio, graças à perfeita disposição do seu espírito, se tornam autênticas ações morais perfeitas, ao passo que no homem comum permanecem justamente em nível de "ações convenientes" (kathekon). Esse conceito é substancialmente criação estoica. Os romanos, que o traduzirão com o termo "officium", contribuirão com sua sensibilidade prático-jurídica, a definir mais nitidamente os contornos dessa noção moral, que nós modernos chamamos "dever". (pág. 289) O dever para com o estado cria o sustentáculo perfeito de unidade política pregada por Augusto.

O homem, pelo "officium", deve voltar-se para a comunidade, ao passo que pela individualidade do espírito cria nele mesmo a consciência de "dever". O vício como mal, e Horácio mostra, não deve estar acima de seus compromissos com a comunidade na qual deve prestar contas: "Que te vale enterrar de prata, e ouro, temeroso, a ocultas, peso imenso! Se o gastas em vil asse o vês tornado, se o não gastas, que encantos nele encontras? Ainda que na eira tua desfazer-se cem mil moios, não creio que o teu ventre abarque mais que o meu: como, se escravo de pão a rede aos ombros conduzires, não comes mais que o outro, que a não leva." (Sátira I, Livro I, versos 56-64) A abnegação e austeridade está presente também na obra de Cícero e que inspira Augusto dentro da concepção estoica. Grimmal diz: "O caráter oligárquico de uma tal concepção é inegável. O funcionamento do sistema assenta, em última análise, no valor pessoal, bom senso, patriotismo e abnegação do "principes", eles próprios apoiados nos "bons cidadãos", os optmates, isto é, na prática, em todos aqueles a quem o nascimento, a fortuna ou o talento conferem alguma responsabilidade e influência sobre os seus concidadãos (...) No lugar da antiga hierarquia fundada exclusivamente no nascimento, Cícero pretende colocar uma outra assente na Virtude, isto é, simultaneamente na pureza de intenções e na energia pessoal. A influência estoica é aqui manifesta. O estoicismo reconhece a desigualdade dos espíritos." (pág. 56) Horácio mostra essa desigualdade do espírito entre os virtuosos e não-virtuosos, entre o homem público e o homem comum, até mesmo pela relação que tem tanto com a vida quanto com a morte: "Aqui o escravo outrora, em vil esquife, dos companheiros seus trazia os corpos, dos estritos beliches arrojados: da triste plebe era o comum jazigo." (Livro 1, Sátira VIII, versos 10-13).

A realidade se continha entre os prazeres e excessos, que está ligado a um ideal liberal em que a alta classe tem tratamentos iguais para iguais. Porém, a altivez cívica que da até mesmo entre o imperador um comportamento de simplicidade perante seus pares e familiares era fundamental. É um comportamento da classe governante que não busca a humildade servil, mas a grandeza e orgulho aristocrático dentro da "dignitas". Dentro desse "ideal liberal" a amizade (pode significar clientela) era o valor supremo, que representava a liberdade e igualdade; o amor, do contrário, era a escravidão e a submissão pela paixão. Horácio da conselho ao relacionamento das amizades com a indulgência, misericórdia e compreensão: "Por que entre amigos não sucede o mesmo? Nome honesto a virtude a esse erro dera! Não odiemos, sequer, do amigo o vício (se tem algum) como usa o pai com o filho (...) Assim com o amigo proceder devemos: é mesquinho? econômico se diga; é fanfarrão e vaidoso? prazenteiro; é livre e rude? franco e bravo o julga... (Sátira III, Livro I, versos 56-70) O estilo político do Alto Império, no período Augustano, é um estilo de "alta-roda" onde se realizava o banquete. Horácio descreve uma cena enquanto fala com um amigo, Fundano: "Fiquei no centro do primeiro leito, Visco Turino ao pé, e (se me lembro) abaixo Vário; os sombras de Mecenas, Vibídio e Balatrão, ficaram juntos; sobre o dono da casa Nomentano; e abaixo Pórcio, que pastéis inteiros trabalhosos sugava. Enquanto aquele a dedo nos mostrava em que bocado o melhor gosto existe, pois grande número de aves comemos, o marisco, o peixe..." (Sátira VIII, Livro II, versos 32 - 41)

Essa abnegação pelos vícios e excessos faziam parte do olhar de desconfiança, principalmente dos intelectuais, pela política evergentista do "pão e circo", sua recusa ao participar dos eventos de entretenimento, usada sistematicamente pelo imperador na tentativa de conceder a plebe aquilo que ela reivindicava pela tradição como um direito seu. Horácio diz: "Aliás tinham que dar em pena, ao povo, cem pares de robustos gladiadores, banquete à discrição e arbítrio de Árrio, e quanto pão em África se colhe..." (Sátira III, Livro II, versos 124-127) Os imperadores conheceram essas tradições gregas e romanas e tornaram essas mesmas políticas públicas como permanentes, centradas na figura do principes. Nesse sentido, poderíamos pensar em algo relacionado a manipulação, mas é muito importante enfatizar que esses imperadores não inventaram o “pão e circo” e, nesse sentido, não estão enganando a plebe quando fazem isso, pois os plebeus apenas reivindicam como direito aquilo que tradicionalmente consideram como “seu” e a forma de participação política da plebe é o “pão e circo”.

Assim como havia a participação pela socialização da coletividade no pão e circo, é parte dessa integração promovida por Augusto na tradição também a realização de festas e banquetes observadas por Horácio, como diz Paul Veyne: "O estilo dos dois ou três primeiros séculos de Império era feito, portanto, de urbanidade e também de urbanismo. Os notáveis, já sabemos, constituíam uma nobreza citadina, que só morava em suas terras nos calores do verão." (História da Vida privada. Volume 1. 2009. pág. 170) Dentro dos muros da cidade, o banquete entre a "alta-roda" era a cerimônia de civilidade, onde o indivíduo "largava sua identidade cívica e pública" dentre seus iguais. A ética do banquete faz com que ele se torne uma espécie de metonímia da vida política, que permite a identificação dos estratos hierárquicos de que se compunham as sociedades grega e romana de várias épocas. Apoiados sobre leitos em torno da mesa repleta de alimentos, untados em óleo perfumado, conversavam enquanto um prosador ou uma música dava vivacidade ao ambiente. Horácio fala sobre os excessos a mesa mostrando a variedade de alimentos da aristocracia: "havia frango; o gostoso cabrito, a réstia de uvas, a noz, o figo a sobremesa ornava: depois nos recreávamos bebendo, tornada a culpa o árbitro da mesa. E Ceres (deusa dos grãos), a quem súplices pedíamos que as sementeiras nossas prosperasse, com suave licor ao fim as sombras das enrugadas frentes sacudia." (Sátira II, Livro II, versos 171-179)

Vislumbrando isso, existe hipocrisia nesse puritanismo cívico que não hesita em denunciar os que não estão de acordo. De um gênero literário, a sátira teve ai suas raízes. Ninguém estava isento de prestar contas de sua vida privada diante da opinião pública, nem mesmo os imperadores. No interior da classe governante, não reina nenhuma cumplicidade de silêncio; os erros públicos e privados são expostos aos olhos dos governados pois, afinal, todo cidadão é em algum nível um homem público. Horácio, na primazia de sua vida de poeta em detrimento das atividades tradicionais da urbes, é uma imagem trabalhada desde as suas primeiras publicações, o que não vai de encontro com o diletantismo romano. Horácio representa a sua vida como melhor que a de um senador, ou seja, melhor que a de um indivíduo da primeira ordem romana: "Por isso, e por mil outras razões, vivo mais comodamente que tu ilustre senador. Vou sozinho para onde me dá vontade, pergunto o preço dos legumes e do trigo, frequentemente passeio ao anoitecer pelo circo embusteiro e pela praça [...] vou dormir despreocupado, porque amanhã não tenho de me levantar cedo [...]. Fico deitado até as dez horas, depois passeio e, tendo lido ou escrito em silêncio, o que me agradar, unto-me com óleo perfumado [...]. Mas quando o sol mais ardente aconselha a mim, cansado, a ir banhar-me, fujo da canícula ardente". (Sátira 6, Livro 1, versos 110-126)

Em linhas gerais, a tradição e as atribuições levantadas por Horácio são uma denúncia a hipocrisia daquilo que pregavam na vida pública quando havia uma "violação" dos costumes, e a vida privada, onde todos se transformavam em "crianças grandes". A luta pela virtude e contra o vício era uma batalha de resistência pela ausência de uma elegância helênica que Roma aparentemente não possuía, inteiramente, em seu espírito mais íntimo. Era um remédio na tentativa de amenizar o sofrimento da paixão e do vício descontrolado pela "busca da felicidade", instrumentalizada pela filosofia. A realidade pública e privada causavam essa estranheza naqueles que tentavam introduzir em Roma os valores filosóficos ausentes nas disputas das principais casas políticas.

A obra de Horácio nos presenteia com a composição de um período de transição, demonstrando pelo riso e a comicidade de forma inteligente, sobre as contradições e mutações dentro da sociedade romana. Horácio denuncia os vícios e injustiças da sociedade de sua época. É um poeta que desperta em nós a existência do bem e do mal que habita em cada um nas circunstâncias da vida, que castiga os exageros de toda espécie, a falta de espírito e o mau gosto. O poeta é guiado pela razão e pelo senso da justa medida dos comportamentos mesmo na vida privada. Assim como nas Epístolas, esboça com grande maestria quadros dos costumes romanos em todas as classes sociais, contemplando as loucuras e vícios de seus contemporâneos. A temática é bastante variada. Percorre o poeta todos os setores da vida cotidiana, num tom familiar e numa linguagem ilustrada pela filosofia. Tem Lucílio como modelo, mas torna a sátira mais bem humorada.




 
 
 

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