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Discurso fúnebre de Péricles e a Atenas clássica

  • Foto do escritor: Pedro Ghisio
    Pedro Ghisio
  • 25 de out. de 2020
  • 7 min de leitura

Atualizado: 26 de out. de 2020

O discurso de Péricles contém elementos claros de orgulho enquanto o lugar na qual pertence e todo o histórico associado a cidade-estado de Atenas frente aos seus vizinhos. É de se notar que uma das principais características da pólis está presente no discurso, que é a própria palavra como instrumento de poder. Segundo Vernant, no capítulo 4 do livro “Origens do pensamento grego”, expressa sobre as transformações mentais na formação da mentalidade grega, sempre distinguindo o período arcaico com uma concepção heroica, individualista e homérica do mundo clássico com o coletivismo, dever cívico e o racionalismo político (junto do mito). Mas, acima de tudo, nos mostra algumas das características principais da pólis clássica no que tange a participação coletiva e ampla dos cidadãos, frente ao exclusivismo aristocrático.

A primeira dessas características é a palavra, em que ele diz: “O que implica o sistema da polis é primeiramente uma extraordinária preeminência da palavra sobre todos os outros instrumentos do poder. Torna-se o instrumento político por excelência, a chave de toda autoridade no Estado, o meio de comando e de domínio sobre outrem (…) A palavra não é mais o termo ritual, a fórmula justa, mas o debate contraditório, a discussão, a argumentação. Supõe um público ao qual ela se dirige como a um juiz que decide em última instância, de mãos erguidas, entre os dois partidos que lhe são apresentados: é essa escolha puramente humana que mede a força de persuasão respectiva dos dois discursos, assegurando a vitória de um dos oradores sobre seu adversário.” (pág. 54)

Péricles exerce influência, como líder populista, sobre os demais para inspirar em um período tenebroso na Guerra do Peloponeso, em que a Liga Espartana e Liga de Delos se enfrentam pelo controle, influência e poder político no egeu. Fazia parte da tradição o uso da oratória e de seu poder em prol do reconforto pelas perdas causadas no conflito através do uso da palavra como união e inspiração, enfatizado nesse trecho: “Após o enterro dos restos mortais, um cidadão escolhido pela cidade, considerado o mais qualificado em termos de inteligência e tido na mais alta estima pública, pronuncia um elogio adequado em honra dos defuntos. Depois disso o povo se retira. São assim os funerais e durante toda a guerra, sempre que havia oportunidade, esse costume era observado. No caso presente das primeiras vítimas da guerra, Péricles filho de Xântipos foi escolhido para falar.” (Tucídides, pág. 96–97, trecho 34).

O discurso é carregado, primeiramente, de uma ancestralidade forte, onde há acima de tudo um reconhecimento profundo da luta e do empenho de gerações passadas para consolidar o regime superior que Atenas diz ter por meio das palavras de Péricles aos ouvintes: “Falarei primeiro de nossos antepassados, pois é justo e, ao mesmo tempo, conveniente, numa ocasião como esta, dar-lhes este lugar de honra rememorando os seus feitos. Na verdade, perpetuando-se em nossa terra através de gerações sucessivas, eles, por seus méritos, no-la transmitiram livre até hoje. Se eles são dignos de elogios, nossos pais o são ainda mais, por aumentando a herança recebida, constituíram o império que agora possuímos e a duras penas nos deixaram este legado, a nós que estamos aqui e o temos.” (Tucídides, pág. 97, trecho 36) O orgulho ancestral e o legado deixado enraízam culturalmente as conquistas, e dão base para uma ideia de que “sempre” houve essa superioridade desde o início.

O modo de governo democrático solidificado em Atenas durante gerações de reformas e reflexões em torno dos problemas agrários e políticos no que tange ao acesso, é um dos primeiros pontos evidenciados no discurso que diferenciam a cidade-estado de Atenas dos demais vizinhos, do “outro”: “vivemos sob uma forma de governo que não se baseia nas instituições de nossos vizinhos; ao contrário, servimos de modelo a alguns ao invés de imitar outros. Seu nome, como tudo depende não de poucos, mas da maioria, é democracia. Nela, enquanto no tocante às leis todos são iguais para a solução de suas divergências privadas, quando se trata de escolher (se é preciso distinguir em qualquer setor), não é o fato de pertencer a uma classe, mas o mérito, que dá acesso aos postos mais honrosos; inversamente, a pobreza não é razão para que alguém, sendo capaz de prestar serviços a cidade, seja impedido de fazê-lo pela obscuridade de sua condição.” (Tucídides, pág. 98, trecho 37) Nesse trecho, é demonstrado que as reformas com critério de renda de Sólon na ampliação de cidadania já não são um empecilho para adentrar na máquina política da cidade, somado a "mistoforia" de Péricles, em que o cidadão era pago pelos serviços, compensando sua ausência em trabalhos pessoais.

É dito que uma das grandes diferenças de Atenas em relação as outras cidade-estado é a promoção intelectual e cultural através das políticas públicas, que tornaram no principal centro artístico e filosófico do egeu e talvez do mediterrâneo. Grande parte dessa riqueza cultural é promovida não só pelos produtos de Atenas, mas pela organização da Liga de Delos liderada pela mesma. A conversão da riqueza material em poder intelectual e cultural não se dá apenas pela riqueza da própria terra, mas por outros territórios subjugados pelo império talassocrático ateniense, como é visto nesse trecho: “Instituímos muitos entretenimentos para o alívio da mente fatigada; temos recursos, temos festas religiosas ao longo de todo o ano, e nossas casas são arranjadas com bom gosto e elegância, e o deleite que isso nos traz todos os dias afasta de nós a tristeza. Nossa cidade é tão importante que os produtos de todas as terras fluem para nós, e ainda temos a sorte de colher os bons frutos de nossa própria terra com certeza de prazer não menor que o sentido em relação aos produtos de outras.” (Tucídides, pág. 98, trecho 38).

Porém, a superioridade da cidade por Péricles traz consequências na própria guerra. A organização política e o modo liberal de vida dos atenienses resultam em sua coragem, fibra moral e perspicácia no combate aos lacedemônios segundo os próprios atenienses. O fato de viverem uma vida com liberdade proporcionada pela democracia, e uma cultura voltada para o alívio das mazelas do dia a dia proporcionada pelo teatro, festas litúrgicas e uma ampla participação política, fazem com que “naturalmente” se tornem mais dispostos a vitória do que o “outro”, o inimigo espartano: “Se, portanto, levando nossa vida amena ao invés de recorrer a exercícios extenuantes, e confiantes em uma coragem que resulta mais de nossa maneira de viver que da compulsão das leis, estamos sempre dispostos a enfrentar perigos, a vantagem é toda nossa, porque não nos perturbamos antecipando desgraças ainda não existentes e, chegado o momento da provação, demonstramos tanta bravura quanto aqueles que estão sempre sofrendo; nossa cidade, portanto, é digna de admiração sob esses aspectos e muitos outros.” (Tucídides, pág. 99, trecho 39)

É menosprezado até mesmo a falta da tentativa de erradicar os problemas sociais que assolam a cidade frente a desigualdade marcante dos gregos em outros lugares, pois, dessa quase erradicação nasce a sabedoria olímpica e a beleza nas artes e na arquitetura promovida por Fídias e o exército de artistas no período das reformas urbanas promovidas por Péricles. A utilidade pública e o interesse coletivo é acima de tudo superior à individualidade, onde o todo tem partes, e essas partes constituem o todo.

O individualismo aristocrático não é cabível na unidade da cidade, ela está acima de tudo contida com austeridade e disciplina como nos diz Vernant: “Os que compõem a cidade, por mais diferentes que sejam por sua origem, sua classe, sua função, aparecem de uma certa maneira ”semelhantes” uns aos outros. Esta semelhança cria a unidade da polis, porque, para os gregos, só os semelhantes podem encontrar-se mutuamente unidos pela “Philia”, associados numa mesma comunidade (…) Todos os que participam do Estado vão definir-se como “Hómoioi”, semelhantes, depois, de maneira abstrata, como os “Isoi”, iguais. Apesar de tudo o que os apõe no concreto da vida social, os cidadãos se concebem, no plano político, como unidades permutáveis no interior de um sistema cuja lei é o equilíbrio, cuja norma é a igualdade. Essa imagem do mundo humano encontrará no século VI sua expressão rigorosa num conceito, o de isonomia: igual participação de todos os cidadãos no exercício do poder. (capítulo 4, pág. 65).

Isso é justamente o que vemos no discurso de Péricles em relação aos atenienses: “Somos amantes da beleza sem extravagância e amantes da filosofia sem indolência. Usamos a riqueza mais como uma oportunidade para agir que como um motivo de vanglória; entre nós não há vergonha na pobreza, mas a maior vergonha é não fazer o possível para evita-la. Ver-se-á em uma mesma pessoa ao mesmo tempo, o interesse em atividades privadas e públicas, e em outros entre nós que dão atenção principalmente aos negócios não se verá falta de discernimento em assuntos políticos, pois olhamos o homem alheio ás atividades públicas não como alguém que cuida apenas de seus próprios interesses, mas como um inútil.” (Tucídides, pág. 99, trecho 40)

Atenas não é apenas o centro cultural e intelectual, mas dentro da Liga de Delos, ou seja, da união das cidades sob julgo ateniense, a cidade-estado de Péricles exerce uma série de proteções e articula como império marítimo uma vistoria sistemática em todo o território na qual tem intervenção direta ou indireta. Pois, é nesses termos em que o líder ateniense evidencia a superioridade moral perante os inimigos, sabendo que prestando serviços pela paz e equilíbrio do egeu, Atenas mostra-se autossuficiente em todos os quesitos, sem prestar contas a qualquer política externa: “Mais ainda: em nobreza de espírito contrastamos com a maioria, pois não é por receber favores, mas por fazê-los, que adquirimos amigos. De fato, aquele que faz o favor é um amigo mais seguro, por estar disposto, através de constante benevolência para com o beneficiado, a manter vivo nele o sentimento de gratidão. Em contraste, aquele que deve é mais negligente em sua amizade, sabendo que a sua generosidade, em veza de lhe trazer reconhecimento, apenas quitará uma dívida.” (Tucídides, pág. 99, trecho 40)

Por fim, é fundamentado seu discurso na ideia de que cada cidadão ateniense, dentro do todo, e pela sua origem e pertencimento a uma cidade-estado superior, tem condições de enfrentar com qualquer perigo com “naturalidade”, legitimada pela própria organização sócio-política que causa efeitos permanentes na moral de cada cidadão pertencente. É justamente essa palavra que mostra a ideia central: “Em suma, digo que nessa cidade, em seu conjunto, é a escola de toda a Hélade e que, segundo me parece, cada homem entre nós poderia, por sua personalidade própria, mostrar-se autossuficiente nas mais variadas formas de atividade, com a maior elegância e naturalidade. E isto não é mero ufanismo inspirado pela ocasião, mas a verdade real, atestada pela força mesma de nossa cidade, adquirida em consequência dessas qualidades. Com efeito, só Atenas entre as cidades contemporâneas se mostra superior à sua reputação quando posta à prova, e só ela jamais suscitou irritação nos inimigos que a atacaram, ao verem o autor de sua desgraça, ou o protesto de seus súditos porque um chefe indigno os comanda. Já demos muitas provas de nosso poder, e certamente não faltam testemunhos disto; seremos, portanto, admirados não somente pelos homens de hoje, mas também no futuro.” (Tucídides, pág. 100, trecho 41).

 
 
 

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