A Odisseia e o mundo homérico
- Pedro Ghisio

- 25 de out. de 2020
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Atualizado: 29 de out. de 2020
No canto IX da Odisseia, Ulisses conta ao rei que lhe acolheu um episódio de seus feitos durante a viagem para sua terra natal. Nele, narra-se a luta que teve contra um Ciclope com seus companheiros, e a estratégia que elaborou junto deles para sobreviver e escapar da ira do monstro isolado que ordenhava ovelhas e confeccionava com o material da lã. Já no canto XI da Odisseia, Ulisses consulta o vidente Tirésias, pedindo ajuda, através de sacrifícios, um caminho seguro e rápido para casa, onde espera sua esposa e filho; havia se perdido, no entanto, durante a viagem e passado por muitas privações e perigos na volta da Guerra de Troia. Ao consultar Tirésias, Ulisses se depara com a alma de seus familiares e antigos companheiros de batalha, assim como muitos que conhecia ou ouviu falar. É um encontro entre vivos e mortos na terra de Hades.
Com base nos trechos do poema homérico, mostrou-se uma sociedade aristocrática e hierarquizada. A construção de valores de um pathos aristocrático em Odisseia, como no canto IX, reafirma a ideia da estratificação social do período micênico e dos costumes relacionados a cortesia: “Pois, afirmo que não há na vida finalidade mais bela do que quando a alegria domina o povo, e os convivas no palácio ouvem os aedos sentados em filas; junto deles estão mesas repletas de pão e de carnes; e o serviçal tira vinho puro do vaso onde o misturou, e serve-o a todos em taças. É isto que me parece a melhor coisa de todas.” (Odisseia, Canto IX, 5 – 11).
Apesar desses valores aristocráticos, o poder dos basileus (no período homérico) não era tão forte e centralizador como o do anax (rei no período micênico), o que revela essa múltipla temporalidade das obras homéricas e da própria transformação social que se deu entre o período micênico e homérico após as invasões dóricas. Um detalhe é que a tecnologia do ferro apenas se domina no tempo homérico, sendo que as narrativas contam sobre o período micênico, o que podemos conferir nesse trecho do Canto IX: “Tal como quando o ferreiro mergulha um grande machado ou picareta em água fria para beneficiar o ferro de ambos os lados — era assim que fervilhava o olho com o tronco de oliveira” (Odisseia, Canto IX, 391 – 394).
A configuração social revelada por Finley, no livro “Grécia Primitiva: Idade do bronze e idade arcaica”, nos diz da seguinte forma: “Sabemos que a população crescera de maneira considerável e agrupara-se em vilarejos, geralmente situados nas encostas que se projetavam acima campos agrícolas. (…) Sabemos também que a sociedade se tornara hierarquicamente estratificada, liderada por uma classe de guerreiros comandada por chefes ou reis. Então, após 1400 (…) ocorreu a dramática mudança, da concentração em imponentes câmaras funerárias para a construção de várias fortalezas-palácios.” (pág. 59) Ao mesmo tempo, a Odisseia nos mostra uma relação diferente com o rei de Ítaca, o basileu Ulisses ou Odisseu: “Aí dei ordens no sentido de fugirmos com passo veloz; mas eles, na sua grande insensatez, não quiseram obedecer. Ali ficaram a beber muito vinho; e muitas ovelhas sacrificaram…” (Odisseia, Canto IX, 43–45).
Estamos falando, em verdade, de três temporalidades distintas desde os possíveis episódios que representam o povo micênico (2000–1100 a.c.) ao ato de verbalizar e declamar esses poemas no período homérico com os aedos (1100–800 a.c.) e redigir na época arcaica na organização e compilação dessas histórias (800–500 a.c.) quando se formou as primeiras cidades-estados. Sabendo disso, é possível ver elementos que se misturam e mostram uma utilização do passado para fundamentar e legitimar as organizações sociais vigentes e posteriores aos acontecimentos.
Em outras palavras, os gregos tentam recuperar muitos elementos da tradição micênica, apesar dessa civilização não ser grega e não falar a mesma língua. Mas os restos arqueológicos impressionavam os gregos e a habilidade oral desse povo, herdando a tradição de heróis que não eram de mesma origem. Todavia, os próprios gregos se colocavam como tal, construindo a ideia de heróis micênicos idealizados que os próprios gregos também absorveram e colocaram para si como ancestrais, quando na verdade não eram. Eles precisam de referências fortes para se espelharem, tentando buscar na tradição micênica suas origens, no passado longínquo de uma suposta “era de ouro”.
Há três ideias essenciais que remetem a democracia grega, por exemplo, e que estão presentes nos poemas sobre a organização citadina, as funções e a hierarquia entre dos deuses: o sorteio; domínio comum; e o “vilão”. O autor Vidal-Naquet, na obra “O mundo de Homero”, fala sobre isso: “Ora, essas três ideias são constitutivas da pólis grega, e a sua presença no texto, diga-se de passagem, torna inútil as polêmicas sobre o nascimento da pólis antes ou depois de Homero. A Ilíada não é concebível sem uma certa presença da pólis. A cidade dos deuses nos permite saber como se desenvolveu a cidade dos homens no período arcaico.” (pág. 68).
O sorteio representa a eleição, que repousou sobre a democracia ateniense posterior ao tempo homérico. O Domínio comum, segundo Vidal, é o espaço comum que foi reservado como domínio coletivo da cidade, enquanto a presença do “vilão” representa as pessoas excluídas desse espaço comum na pólis. Um dos trechos do Canto IX mostra esse distanciamento que se cria entre a organização social da pólis em pleno processo de criação e o mundo “bárbaro” que não tinha uma legislação eficaz: “Para eles não hão assembleias deliberativas nem leis; mas vivem nos píncaros das altas montanhas em grutas escavadas, e cada um dá as leis à mulher e aos filhos. Ignoram-se uns aos outros.” (Odisseia, Canto IX, 112–115) Exemplifica-se na obra “O mundo de Homero”, porém, que essa concepção está presente nos Aqueus e troianos: “Portanto, os aqueus, que são um exército de coalizão, não constituem uma cidade no sentido clássico da palavra. Possuem, no entanto, às duas instituições essenciais: a assembleia, que reúne todos os guerreiros e é convocada por Agamêmnon desde o início da Ilíada, e o conselho, que reúne uma elite de guerreiros dentre os mais idosos (…) Em Troia, o Conselho dos Anciãos circunda o rei Príamo, e Heitor, numa determinada ocasião, reúne a assembleia-geral de guerreiros. Nota-se igualmente a presença, nos poemas homéricos, da noção de maioria.” (pág. 68–69)
Ao mesmo tempo, no capítulo 7 da obra de Naquet, é descrito com base nos poemas a hierarquia social. A ideia de igualdade não era desconhecida no mundo grego, que inventou a democracia, mas essa igualdade foi sempre reservada, mesmo em Atenas, apenas aos cidadãos do sexo masculino, isto é, a uma minoria.
Outro valor do mundo homérico revelou guerreiros orgulhosos e que valorizavam a honra e a imagem para a posteridade acima de tudo, até mesmo para reafirmar seu lugar depois da morte e como forma de elevar seu status. Esse status é parte dessa concepção de nobreza e grandeza de origem que remetia ao culto familiar. Ilíada faz apologia a mais bela guerra, e quando envolve a "Beleza", ao meu entender, há uma idealização de valores guerreiros. A valentia (aristéia) é um desses valores quando envolvem a morte, a bela morte. A dignidade do heroísmo também não se dá em qualquer momento, sendo o caso da luta com o arco e flecha, que eram considerados perversos na guerra heroica por nunca combaterem corpo a corpo. A noite também não é um símbolo de guerra heroica, é o momento do disfarce, da astúcia, da emboscada.
Ninguém representa melhor o valor da astúcia, do que Ulisses. A Odisseia representa bem como o protagonista se livra de suas situações ao tentar retornar para a civilização depois de anos de barbárie, representando em no personagem principal todas as variantes da condição humana, de mendigo a rei. Mas o modelo de luta de Ulisses não é o afrontamento real. No episódio do Canto IX em que Ulisses consegue vencer o Ciclope com sua inteligência, muitos dos valores atribuídos a arte da guerra e a estratégia estão presentes; o próprio verbaliza com orgulho no processo de fuga: “Em último lugar, foi o carneiro que saiu, carregado com o peso da lã — e com o meu, na grande esperteza do meu estratagema.” (Odisseia, Canto IX, 444–445)
Finley deu ênfase a belicosidade e fortificação, ao contrário dos palácios minoicos, sob o mundo micênico. Se registrou, no entanto, o mesmo padrão de controle e administração do palácio sobre a comunidade e a região circunvizinha. O que se supõe é que algumas dinastias se sublevaram sobre outras como superpotências e de suserania, em que chefes mais fracos eram derrotados, sobrevivendo em alguns casos sob algum tipo de submissão. No quadro geral revelado pela arqueologia e pelas tábulas, o autor diz na obra “Grécia primitiva: idade do bronze e idade arcaica”: “… divisão da Grécia micênica em vários pequenos estados burocráticos, com uma aristocracia guerreira, um artesanato de alto nível, um intenso comércio exterior de produtos necessários (metais) e artigos de luxo e, na melhor das hipóteses, uma condição permanente de neutralidade armada nas relações de um com o outro e talvez, ocasionalmente, com os estados submissos.” (pág. 61) Essa belicosidade se apresenta muito no mundo micênico hierarquizado e guerreiro com a presença do carro de guerra, que também está nos poemas e é próprio como uma arma de guerra inspirada nos hititas: “Então levantou e colocou no lugar a enorme pedra que serviria de porta: nem vinte e dois carros de quatro rodas seriam capazes de levantá-la, tal era o tamanho da rocha que ele ajustara como porta à entrada” (Odisseia, Canto IX, 240–243).
O papel divino também é parte essencial nos episódios narrados, pois, o mundo terreno e divino está intrinsecamente relacionado. O homem é dignificado e enobrecido pela vitória com as concessões dos deuses, com a inspiração que emana deles para o ser mortal, ou seja, o homem não é apenas um corpo, mas um espírito, evocando poeticamente sempre o mito. Os homens gregos, ao que parece, não diferiam tanto a influência divina sob os resultados do mundo terreno e suas consequências, e que, portanto, realidade espiritual e física eram inseparáveis. Em um dos trechos do Canto IX, Ulisses fala: “Os teus atos nefandos tinham mesmo de se abater sobre ti, ó malvado, que não hesitaste em comer os hóspedes em tua casa. Zeus e os outros deuses fizeram recair sobre ti a sua vingança.” (Odisseia, Canto IX, 477–479). Ele associou os próprios atos de suas estratégias com a inspiração vinda de Zeus para punir o Ciclope que aprisionou seus companheiros.
Naquet reforça o papel dos deuses no capítulo 5 no livro "O mundo de Homero", onde se fala sobre a organização da Cidade-Estado grega e da polis frente aos poemas homéricos e a mitologia. A organização da cidade dos deuses é relacionável ao mundo terreno grego; os valores democráticos e políticos estão presentes na literatura homérica, conciliáveis aos deuses apresentados. De início, no capítulo, mostra-se que nos poemas os deuses intervêm diretamente: “Para o leitor moderno, nada é mais surpreendente, mais desconcertante, do que a presença constante de deuses e deusas na Ilíada e na Odisseia. (…) Ele os faz combater na Ilíada em campos opostos. Atena, Hera e Poseidon estão do lado dos aqueus, que acabarão por vencer, enquanto Apolo, Ares e Afrodite são partidários decididos dos troianos.” (pág. 63) Os deuses tomam partido também de maneira física, se disfarçando; e assim como combate e alianças, há o amor e a ligação entre deuses e homens.
Durante a batalha e em boa parte do canto XI, é revelado a preocupação do guerreio morto em relação aos ritos fúnebres, o que é próximo de sua projeção no mundo divino e além-vida como mostrado antes: “Aí, senhor, te peço que te lembres de mim! Não me deixes sem ser chorado e sepultado quando regressares para casa, para que não me torne contra ti uma maldição dos deuses. Queima-me com a armadura que me resta dos deuses. Queima-me com a armadura que me resta e eleva-me um túmulo junto ao mar cinzento, para que saibam os vindouros deste homem infeliz. Faz isto por mim: e fixa sobre o túmulo o remo com que em vida remei junto dos meus companheiros.” (Odisseia, Canto XI, 71–78) Muitos túmulos continham ricos objetos funerários, os lugares de repouso de famílias que ocupavam uma alta posição, indicando poder e prestígio. Finley, em sua obra sobre a Grécia primitiva, mostra muitas partes da Grécia central onde têm esse fenômeno de concentração de poder, durante o Heládico Tardio I e II. Nesse período, ao mesmo tempo, a civilização micênica passa a ter um poder e influência mais ativo no continente, tornando-se visível no estrangeiro, indicando achados de cerâmica na Sicília e sul da Itália, em direções do Chipre e Ásia Menor.
O estilo literário de Homero é o “Realismo”, que para nossa realidade tem valor literário, não normativo. Define-se o estilo do poeta, como nos diz Carpeaux: “rápido, direto, simples e nobre”. Ele cria, ao mesmo tempo, adjetivos estereotipados, fórmulas fixas e clichês de algo dignificado. Através dessa linguagem direta, são palavras chaves que evidenciam uma criação de modelos de comportamento em sua pedagogia, como no canto XI: “Mas fala-me agora do meu filho orgulhoso, se partiu para assumir liderança na guerra, ou não. Fala-me do irrepreensível Peleu, se algo soubeste: se é ainda detentor de honra entre os numerosos Mirmidões, ou se agora na Hélade e na Ftia o desconsideram, porque lhe retém as mãos e os pés a velhice.” (Odisseia, Canto XI, 488–497)
Naquet define bem as características fundamentais dos dois poemas. No capítulo 4 se fala sobre os valores e a idealização da guerra e do combate heroico em Ilíada e Odisseia, na qual o autor representa nos Cantos. Segundo ele: “A Ilíada é o poema da guerra. Em caso de necessidade, os próprios deuses intervêm para contrariar os processos de paz. (…) De certa maneira, a Odisseia é o poema da paz, ainda que por vezes ocorram lutas. Diferentemente da Ilíada, concluída com a trégua que permite a realização dos funerais de Heitor, a Odisseia termina com uma paz estabelecida entre Ulisses e as famílias dos pretendentes mortos por ele.” (pág. 51).
O instrumento da intenção pedagógica é a criação de exemplos ideais, tirados do mito. O pathos heroico de “Ilíada” e a ética aristocrática de “Odisseia”, criam exemplos ideais de vida que influencia sob a realidade grega. O equilíbrio, portanto, entre realismo e idealismo, é o que conferem a Homero “vida eterna”.




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